segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Eu voltaria



Se não fosse pela terra rachada,
Que de longe espia a patativa sossegada.
Se não fosse pelas promessas quebradas,
Que afoitos doutores indagam ao ar.
Se não fosse pela chuva que só vi aos três anos de nascido,
coisa linda de lembrar.
E a força da terra sugando a água,
Feito bicho faminto no peito da mãe.
Se não fosse pelas marcas na cara, que o sol,
o que mais vi na vida, enrugou-me na lida.



Se não fosse a vontade de dar de comer,
E não ter o que na panela ferver.
Se não fosse por ver meus rebentos de fome chorar,
Tendo costelas de fora a mostrar.



E no canto, como quem implora pena,
Conformado na certeza de que é sina,
Chora e reza a Deus uma providência,
E até de antemão já paga penitência.
Roga ele, caboclo forte, que trabalha
Mas sem sorte não tem o que comer.
Pois queimado e mal nascido, seu feijão e seu milho,
Não tem o que colher.
Roga ele uma divina intercessão
Pra sua cria, com saúde, ver crescer.



Com marcas visíveis no lombo, dói só de lembrar,
Dói mais ainda não poder voltar.



Mas se fosse pela saudade da terrinha,
Ah, eu voltaria!
Gente honesta, esperançosa e unida.
Das águas de cheiro
Das moças com vestido de chita.
Flor de mandacaru,
Atardinha na rede, preguiça.



Por isso tudo um dia eu volto,
nem que seja só em alma.
Foi lá que nasci, e a essa terra voltarei.
Minha amada injustiçada
Por aqueles que não querem melhorar você,
Meu nordeste sofrido, mas querido,
amo você.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

As cruzes da corrupção


A cruz que uma nação carrega é demasiado pesada tendo em vista a pequena parcela de marginais que se deliciam à revelia de sua desonestidade.

As cruzes provocadas pelo corrupto no desvio de armamentos pesados de uso exclusivo das Forças Armadas onde trabalha.

As atrofias intelectuais provocadas pelo desvio de merenda, pois a fome afasta as crianças da escola, para sustentar a família de um funcionário público que recebe vale alimentação.

Cruzes para lembrar duas crianças mortas, uma no asfalto outra no morro, no conflito em que uma delas, ausente na escola, vendia drogas para o irmão da outra.

A cruz dessa criança faz lembrar que ela, ainda com vida, morreu em um hospital público por falta de material médico-hospitalar, resultado do desvio de verba da saúde pública para financiar campanhas eleitorais.

A cruz fixada no alto de uma igreja, onde uma jovem reza pedindo dias melhores após ter sido demitida por ter passado dinheiro a mais para o freguês que fez de conta que não viu.

As cruzes de um cemitério cobertas de uma poeira vermelha são o resultado da ganância de um prefeito que decidiu desviar o projeto de irrigação para a sua fazenda produtora de café.

A cruz do desemprego, carregada pelo homem quase morto, revela as veias de um rio por onde se escoam verbas públicas destinadas à geração de empregos.

Em um cruzamento que liga o poder legislativo e o poder executivo da região, um garoto fuma craque pois, desnutrido e mal nascido, viaja na majestosa arquitetura do estado patrocinada com o mesmo dinheiro que poderia salvá-lo.

As cruzes sociais que são levantadas a cada golpe de braço dado por essa minoria criminosa, feita por seres asquerosos que só enxergam o próprio umbigo, são a prova mais concreta de que essas coisas não pertencem à nossa espécie. Porque o homem, quando se torna corrupto, deixa de ser humano. E o resultado é esse.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Vassoura Elétrica: Blues, Rock e poesia


A Vassoura Elétrica, nome tirado de um apelido carinhoso dado a uma guitarra problemática da banda, deu início as atividades nos idos de 1999. Inicialmente, o grupo contou com os músicos Waderson Alves (vocal), Joaquim Rosa (guitarra), Paulo Jones (baixo) e Nildo Cardoso (bateria). Originário da cidade satélite do Gama-DF, o grupo teve, no princípio, um som calcado no rock e no blues produzidos na década de 70. Com o amadurecimento musical, decorrente das freqüentes apresentações, cores mais progressivas foram dando tons às novas canções. As letras, escritas pelo vocalista, trazem uma roupagem poética com uma temática que envolve o ser humano e a vida em sociedade.

Em mais de dois anos de estrada, os músicos se apresentaram em quase todas as cidades do DF e no entorno sul da Capital Federal. Em Brasília foram seis apresentações que lhes renderam importantes contatos na cena cultural do DF. Nesse período, foram firmadas importantes parcerias para a produção e execução de conteúdo musical. Entre as parcerias, destaque para a União de Bandas Por Um Minuto De Rock (junção de bandas do Gama para a fomentação de shows na cidade) e a Dois Elefantes Produções.

Outros destaques foram as participações em programas de rádio como o Cult 22, O Pau Que Rola, Um Minuto De Rock e o Kriptonita e nas revistas Porão do Rock, M.E. Studio, Fina Flor Do Rock e Marcos Alexandre da Dois Elefantes. Os músicos também se enveredaram pelos caminhos da 7ª arte, por meio de contatos com cineastas da cidade e na produção de videos e curtas metragens.

A Vassoura Elétrica chegou a gravar algumas músicas para a produção de um CD-Demo, porém, não foi lançado. No ano de 2004, depois de muitas apresentações, os músicos resolveram pendurar os instrumentos o que, na verdade, foi apenas uma pausa. Em 2009, depois do hiato e com um estilo Hard Rock e Blues, a banda retoma a caminhada. A formação atual conta com os remanescentes Waderson Alves e Joaquim Rosa, além dos músicos João Mário, teclado e gaita, Luciano Klayton, baixo, e Sandro Marra, bateria.

Hiato
Em 2008, um dos responsáveis pela criação da Vassoura Elétrica, Joaquim Rosa, resolveu voltar à cena musical. Junto com os músicos João Mário (teclado e gaita), Sandro Santos (baixo), Victor Andrade (bateria) e Vicente “Speedy” Gonzalez (vocal), Joaquim montou a Blues Efêmero Band. A banda de blues apresentou melodias e riffs expressivos salpicadas de peso e harmonia típicos do rock n´ roll dos anos 70. O projeto durou cerca de um ano.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Marias


A palma da mão tem calo,

O filho de pés descalços,
A mãe da sangue e suor pra poder comer.
O pai já partiu da vida,
Por conta de uma imensa dívida,
Vivia bebendo cana para se esquecer.
Esquecer que a vida te mostra o caminho do sol e depois tira.
Pois o sol que brilha, nasce pra dar coragem
A quem tem coragem pra vencer na vida.


E quando amanhece o dia,
A mãe se enterra na lida,
Catando lata e lixo pra sobreviver.
O dia nunca termina,
À noite lava e passa
Busca força e vontade mesmo sem ter.
Pois ter, resigna a face a levar os tapas das palmas da vida,
Já que ter indica quem nasce com marca de pobre,
E quem é que vai estar sempre acima.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Chamando Chuva


Chuva que cai, que abranda
a brasa cuspida da boca do sol;
chuva que cicatriza com verde,
com vida, o corte do chão.

Chuva traz alegria
secando o rio salgado do olho.
Chuva que traz a vida
que a seca bandida nos tirou das mãos.

Seca desesperada, teu cheiro de mágoa
tá chegando ao fim,
que a chuva que cai te lava,
pois dias melhores já estão por vir.

Chuva traz esperança
com aquela criança brincando no açude.

Saiba que eu comeria sua água
e faria folia sem fim.

Coisas da Capital


Um mundo de concreto, vidros e metais,
gravatas que dão nós em pescoços de generais
como símbolos de forca,
para quem contra a força se postar.
As leis são transgredidas por seus criadores,
assim:
como quem brinca de Deus, sem medidas humanas, só de cifras numéricas.


Aqui é um grande bosque de cores variadas,
planos sinuosos e indisposições políticas,
fatídicas histórias de almas vendidas,
assim:
como quem luta pra viver melhor,
sem se preocupar com o que está embaixo do sapato de couro de gente.